Quarta-feira, Novembro 18, 2009

NUM CAMPO DE REFUGIADOS (dreamscape 2)


Tudo deve se passar nos meses que se seguem ao fim da segunda guerra. Perdi meu corpo na batalha, mas me deram um outro, imenso e desengonçado, cheio de tatuagens e cicatrizes, que eu estudo num espelho, como quem lesse um livro. Devo estar em algum campo de refugiados, numa cabana caindo aos pedaços, que divido com um soldado de nacionalidade indefinida e uma moça que só se comunica por sinais e que com certeza foi estuprada centenas de vezes. Ela está cheia de hematomas e marcas de picadas nos braços. Ela tem medo do soldado, ele a ameaça a estuprar novamente. Da cabana, pela janela, vejo os soldados americanos dançando em volta de uma fogueira, bebendo, como uma fraternidade de filmes de Hollywood. Um homem parecido com Ezra Pound passa por ali. Dizem para que eu não me aproxime dali, e xingo quem disse isso, em russo, embora não a veja a pessoa. Deve ter sido o Pound, que está com um rosto sofrido e arrasta um cobertor enlameado. John Wayne lidera a cantoria. Idiota. Fecho a janela e ela desaba do lado de fora. Tenho em meu pulso um relógio que também deve ter pertencido ao corpo do morto em batalha, o corpo que perdeu a vida e que foi dado a mim, como algum prêmio sinistro por ter dado o meu corpo na batalha. Só não me perguntaram se eu queria este prêmio. Eu preferia ser pura alma. Olho novamente para o visor do relógio digital. É um relógio especial, e também parece ter sido atingido por estilhaços de bomba. Aperto um pequeno botão e imagens a princípio riscadas e trêmulas começam a aparecer. São cenas de guerra, de cidades devastadas, de imensos exércitos se movimentando pela neve, e muitas pilhas de cadáveres sendo incinerados e varridos da existência, para que desocupem o campo de batalha e permitir o avanço das tropas. As cenas se tornam embaçadas, no visor riscado, mas reconheço muitos de meus companheiros pegos no momento da morte. No exato instante em que estou vendo estas cenas no pequeno visor, tentando entender o que aconteceu comigo, meu companheiro de cabana entra e desligo o relógio. Ele franze a sobrancelha, sei que desconfia de mim, por não saber minha nacionalidade, mas não posso me revelar, nem eu mesmo sei a que exército pertenço. Sei que estamos esperando a transferência para uma região mais ao norte, quem sabe Sibéria. Eu pareço uma mistura de índio com esquimó. Sei que sou muito forte, como uma espécie de soldado mutante. Sei que sou precioso, talvez um agente secreto cujas informações foram apagadas através de uma lavagem cerebral, mas quem me deu este corpo tentou apagar as pistas para que eu não descobrisse minha verdadeira origem. Mas as pistas estão em mim, inscritas em cada centímetro de minha pele dura como a de um crocodilo. Meu companheiro de cabana desconfia de mim, quem sabe, por não acreditar como um homem com tantas cicatrizes e hematomas (algumas delas repartem minha carne ao meio) conseguiu sobreviver a tudo isso. Mas sobrevivi. Tento me comunicar com ele mas ele é um camponês bruto e só pensa em cheirar cocaína. Ele se senta numa cadeira caindo aos pedaços, estende duas carreiras gordas e me convida. Tento ser solícito e aceito apenas uma vodka, que ele despeja num copo fétido., até a boca. A moça está presa por uma algema numa das pernas da cama e me lança um olhar de súplica. Cortaram sua língua. Ela ainda sangra no chão do quarto.
O piso da cabana é de madeira podre, e ele cede a cada passo, dando a impressão de que a qualquer momento o escuro espaço por debaixo vai nos engolir. Olho novamente para o relógio, fora do alcance do olhar do bruto camponês, e penso que ele na verdade ele está mais para um checheno, ou até mesmo um turco, pelos seus traços e pele escura. Ele sai novamente e ligo para Maurício vir me pegar. Maurício atende e diz que está com Bernardo. Ambos estão indo para uma festa. Eu digo, filhos da puta, eu me fodendo neste sonho, no corpo de um homem que não conheço, e vocês indo se divertir. Maurício desliga o telefone na minha cara e ligo novamente. É um daqueles telefones militares, usados para passar mensagens em meio a campo de batalha. Maurício atende, soltando uma gargalhada. Outras pessoas estão rindo dentro do carro que ele dirige, e uma das risadas eu reconheço como sendo da moça que eu namorava até ser convocado para esta guerra insana. Peço sua posição, dou as coordenadas, usando todo o jargão militar, e, pelo que ele me diz, não está distante de Kiev, o bairro de refugiados onde me encontro, o bairro onde decidiram guardar os homens dos exércitos sem pátria, enquanto decidem o que fazer conosco. Insisto com ele, digo que não custa nada ele vir me pegar, e ele finalmente se convence que o melhor a fazer é me resgatar. Aviso que eles não irão me reconhecer pois eu perdi meu corpo original, estou usando o corpo de um homem grandalhão que perdeu a vida na guerra. Um selvagem. Descrevo-me para que ele me reconheça quando eu estiver na esquina bombardeada onde combinei o encontro. Explico que deram-me este corpo substituto porque eu não merecia ter morrido. Maurício passa as informações para Bernardo, e mesmo ele tendo abafado o bocal do fone, escuto as risadas altas do grupo dentro do carro. Filhos da puta. Não acreditam em mim. Enquanto espero o jipe militar me aproximo do espelho grande e quebrado do quarto da cabana puída e fico estudando as estranhas tatuagens que trago pelo corpo todo, e tento descobrir a origem do homem que forneceu a matéria-prima física para eu continuar existindo.
Um sinal de Rosa-Cruz nas costas. Uma serpente imensa em meu braço esquerdo. O nome de uma mulher em cirílico.

A porta da cabana se abre novamente, não é ninguém. Mesmo assim, pressinto que alguém entrou, quem sabe uma alma. Sinto uma lufada de ar. Quem sabe a
minha alma. Olho novamente para o relógio e vejo no visor mais cenas do conflito que acaba de acontecer, e percebo que eu estava do lado dos que perderam a batalha. Ainda escuto os soldados americanos em volta da fogueira, cantando canções estúpidas, liderados por um John Wayne de mais de dois metros de altura. Mas eu me olho no espelho e vejo que meu aspecto é grotesco o suficiente para meter medo em qualquer um, até em mim mesmo. Meu cabelo negro e espesso se cola em minha testa. Não devo tomar um banho há alguns meses. Meu cheiro me enjoa. Mas não há água em lugar nenhum. Os meus músculos doloridos, eu sei, trazem uma história de violência. Tenho a absoluta certeza, naquele momento, de que matar, para mim, é algo que já devo ter feito muitas e muitas vezes. Se ao menos eu pudesse me lembrar. Me concentro em meu objetivo naquele instante, que é odiar Jolhn Wayne e decido que o canalha merece morrer. Acho que posso fazer isso antes de Mauricio chegar. Ele e todos os soldados americanos sorridentes cantando suas cançõezinhas estúpidas. Mato a vodka toda, bebo direto no gargalo e jogo a garrafa no espelho que não precisarei mais usar. Parece água para mim. O que estou fazendo agora é carregar meu imenso corpo e ir em direção à fogueira, sob os olhos assustados dos que me vêem passar, inclusive meu companheiro de cortiço, que chega arrastando sua prisioneira como uma boneca de pano puído, quando a buzina do jipe toca do lado de fora da cabana. Vieram para me pegar. Danem-se. Decido que a prioridade é liquidar John Wayne e aqueles soldadinhos gringos de merda, aqueles cuzões. Eles vão pagar caro por terem me acordado. Deviam saber que odeio a luz do sol.



Sonhado na mente em 18/11/2009

ASSIM CAMINHA A FILOSOFIA


TO BE IS TO DO (Descartes)


TO DO IS TO BE (Sartre)


DO BE DO BE DO (Sinatra)




compilado por

GREGORY CORSO


Segunda-feira, Novembro 16, 2009


"Quando perdemos uma pessoa que a gente sente como muito importante para nós e para o mundo, uma coisa que a gente deve tentar fazer é como que se transformar um pouco nela, para que ela possa viver através de nós".


Belas palavras de
José Miguel Wisnik, no seu livro Sem Receita

BALADA LITERÁRIA 2009

Esta semana começa a segunda edição da BALADA LITERÁRIA, capitaneada pelo Marcelino Freire. A programação tá muito legal. Link aí do lado. Eu participo de uma mesa no dia 20, às 14:30, na Livraria da Vila, num bate-papo sobre a poesia e prosa latinoamericanas. A mesa será mediada pelo Frederico Barbosa, e terá Claudio Willer e o venezuelano Léo Felipe Campos.



Domingo, Novembro 15, 2009

De um diário antigo



"Lembra daquele entardecer, em que ficamos vaiando o crepúsculo, xingando as nuvens, enquanto nossos corpos passeavam no infinito, brincando de envelhecer?"



AGHARTA (Rodrigo Garcia Lopes)




No rosto das sombras arrecio, spray, salito.

Espaço maciço e sem estrelas, presença no avesso

de si mesma, fulgor de ossos, unipensamento.

Sefiras ardem em vazios — névoa muezin

dobra-me e

se me-

dita. Nossos gestos sobrepostos escapam

(emblema de instantes).

A praia rege ondas com seus acenos de ventos,

sua corola ocular:

áspero, acre olor de enquanto.

Rastilho de vagalumes acesos (ao tocá-los).

O movimento queima.

O arder do corpo impermanece. Dispara

no som que bebe o estampido rouco (eco)

de sua imagem (sem sentido). O corpo, nomádico,

imprime lucilâncias

no ombro do Céu, asceta.






Rodrigo Garcia Lopes (Visibilia, Travessa dos Editores, 2005)

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

MEU PESADELO AMAZÔNICO (dreamscape 1)


Estou em Manaus tentando pegar o avião para os Estados Unidos. Já não tenho tempo hábil para chegar a tempo do primeiro dia de aulas. Descubro que tenho que pegar o voo em Guarulhos. Mas não tem ônibus nem voo para São Paulo, só para Curitiba. Desisto, não quero ir para Curitiba de jeito nenhum, depois percebo que seria uma ótima opção, mas já é tarde. Atravesso o Amazonas numa barca bastante precária mas em alta velocidade com líderes do PSDB, dirigido por um português que não fala a minha língua. Os líderes do PSDB não falam comigo, parecem não entender o que eu digo, na verdade o que eu quero é uma carona no avião fretado deles para voltar para São Paulo (eles devem ter algum avião fretado). Um intenso cheiro de fritura emana do outro lado do rio. Pouco a pouco os líderes do PSDB vão se suicidando nas águas barrentas do Amazonas, enquanto elogiam as melhorias que estão fazendo. Não entendo nada. Tenho medo do Serra, que não pára de olhar para mim. Ele parece querer meu sangue. Existem ondas gigantes, artificiais, criadas para estimular o turismo local. Seguem discursos. As ondas chegam com tal força na margem que fazem as ondas da pororoca parecer miniaturas. Música breganeja escapa dos alto-falantes. Não gosto nada do tamanho e do aspecto das ondas. Quando vou comentar isso com meu guia, ele desapareceu.

O calor é frio. Sinto calafrios. Waldir Aguiar surge novamente, como na noite passada, para dar uma força, gritando da margem do rio, mas não consigo ouvir, e a barca já avança o grande Rio. Quero saber quem é o responsável pela produção do sonho. Não há ninguém para perguntar. O barco chega sozinho, apenas comigo. Pára sozinho e o motor desliga ao tocar terra firme. Do outro lado do rio está sendo realizado um simpósio de poesia portuguesa onde ninguém fala nada com nada. Umas figuras esquisitíssimas. Estou do outro lado do rio, numa cidade ou vila que não sei onde é. Árvores imensas e sem nome rufam sobre minha cabeça. Parecem querer dizer alguma coisa. Tento tirar fotos. A máquina digital está estragada, entrou água. Pego um carro-barcaça que vai passando a toda velocidade por curvas cheias dágua do Amazonas, por vilas, casas, construções em ruínas. Botos selvagens ficam o tempo todo cutucando o casco do nosso carro-barco. Alguns deles aproveitam as ondas imensas do Amazonas e surfam com destreza. Vejo seus corpos se movendo sob as ondas imensas. Com o impulso, chegam até as praias do rio, deslizam e param em terra, com guinchos. Uma multidão se aglomera para ver o fenômeno. Acham os botos "bonitinhos", crianças e mulheres, mas em seguida começam a cravar estacas e a matá-los, furiosamente, com os dentes cerrados, soltando uivos de prazer. Percebo que a multidão está na verdade faminta ou possuída por uma doença que as torna violentas e egoístas. Ah, então é por isso, penso, que estão todos isolados aqui nesta vila, ou indo para cá. A população se junta para fatiar pedaços dos botos cor-de-rosa imensos, que soltam gritos lancinantes. Todos brigam entre si. Famílias inteiras se debatem. Em seguida, outros botos começam a chegar, botos gigantes, furiosos, da cor de sangue desta vez, usando as ondas que chegam às margens para ganhar potência e precisão: chegam usando seus bicos como armas e cravando-as na cabeça e membros das pessoas em terra, as assasinando. Sangue. Os golpes são certeiros. A cena toda é horrível.

Vou novamente ao porto (não sei como cheguei ate lá) e digo que quero voltar para Manaus. Manaus estava ótimo comparado com isto. Nem penso mais em voltar para os Estados Unidos. A esta altura, meus alunos americanos já me denunciaram à direção da universidade. Penso que São Paulo já está de bom tamanho, isto é, se eu conseguir chegar lá. A única pessoa que trabalha no porto é um senhor que me diz, com sarcasmo, mostrando os dentes podres, que só consegue um barco se eu tocar três músicas. Menos "Rita", do Chico Buarque, ele diz. Ele se parece com o cara de alguma ordem dos músicos. Não é o Caronte. É o único funcionário por ali. Não há passageiros para embarcar. Abro a caixa do violão, que surgiu misteriosamente em minha mão direita, e as cordas se arrebentam de uma vez, menos o mizão. Xingo a mim mesmo, fujo dali e volto para o simpósio de poesia portuguesa, que se realiza numa espécie de hospital em decadência. De repente, penso, consigo uma carona por lá. Um cara esquelético com cara de Saramago me pede crachá do evento. Me livro do velhote com cara de múmia com um safanão e entro num quintal onde pessoas jogam futebol com frutas tropicais já meio despedaçadas. Penso que posso me disfarçar por ali, ninguém vai perceber minha presença. Ledo e Ivo engano. Descolo um grande cobertor amarelo e tento usá-lo como para-quedas, parapente ou o que quer que seja. A ventania é forte o bastante para me levar dali, pelo ar. Ganho alguns metros acima do solo. Desisto da ideia rapidinho, pois a altura pode me matar e eu posso cair em plena floresta amazônica. Alguns portugueses percebem que estou tentando fugir e me pegam pelo pé. Desisto do plano e volto a jogar o futebol caótico. Só então percebo que algumas frutas na verdade são cabeças. Humanas. E de botos cor-de-rosa. Alguém avisa que uma parte da delegação de Guiné-Bissau e dos Açores acaba de chegar. Eles entram no hospital precário que é usado para o evento enrolado em sacos plásticos de lixo, panos sujos, cobertores, e em cadeiras de rodas. Não vejo sequer seus olhos. Está um calor infernal, mas mesmo assim eles não tiram os cobertores. Passam por mim em cadeiras de rodas que se movimentam sozinhas. Parecem monges de alguma seita demoníaca. Resmungam em uma língua que não se parece com nada com o português, feita apenas com consoantes. Penso no motivo dos portugueses maltratarem tanto as vogais. Não obtenho resposta. Parecem andrajos de uma pintura de Bruegel. Só que estão em cadeiras de rodas que se movimentam sozinhas. Uma Juliane Moore velhíssima tenta falar comigo. A ignoro solenemente. Volto para a sala onde está sendo discutido algum aspecto semiótico da poesia ribeirinha de Maria João Carapinha e fico quieto. Tentando ganhar tempo. Pensar em outra saída. Uma mulher me descobre ali e me chama com o dedo que se transforma num gancho assustador. Dentro de uma sala, que parece ser de tortura, ela anuncia que estou sendo procurado pelo meu orientador de doutorado. Explico que já terminei o doutorado há anos, mas ela parece não me ouvir. Aliás, ninguém parece me ouvir. Todos no simpósio me olham, furiosos. Descubro o motivo: no último encontro, embalado pelo álcool, eu tirei sarro de uma marca de iogurte que financia o evento e então decidiram suspender minha bolsa. E eles tem as imagens que me denunciam. Dizem que vou pagar caro com isso. Eu ameaço denunciá-los por maus tratos aos botos. Os banheiros. estão fechados. Nenhum telefone público funciona. Parece que estou na vida real. A direção do evento começa a me perseguir. Tento achar a saída de volta. Mas não encontro. Faz muito calor aqui no Amazonas. Prometo a mim mesmo que nunca mais lerei Saramago. Aliás, nunca li. E isto me reconforta. Olho para o céu, o sol começa a cair, da mesma cor dos botos cor de sangue. Não sei o que vai acontecer nos próximos minutos. E nem sequer tenho fotos para mostrar que estive ali.




Escrito e sonhado na mente em 12/11/2009


Terça-feira, Novembro 10, 2009

WALDIR AGUIAR

Waldir Aguiar, que era produtor e amigão do Edvaldo Santana e de alguns de meus amigos, morreu ontem. Não o conheci muito bem, mas todas as vezes senti que ele era uma pessoa boa. Da paz.
Produziu dois de meus shows, um no SESC Pompéia e, há um mês, no SESC Vila Mariana. E estávamos armando outras paradas.
Na última vez que estivemos juntos, há uns dois meses, no dia do show do SESC, ele disse que inha tido um piripaque e ido parar no hospital. Tinha levado um susto.
Era uma grande figura humana, pessoa super carinhosa e atenciosa, dessas que andam raras por aí. Waldir, você vai fazer falta!

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

ENTREVISTA SOBRE WHITMAN, TRADUÇÃO, POESIA E MÚSICA


Rosaly Senra , da Rádio UFMG Educativa, de BH, me entrevistou sobre a homenagem a Whitman e minha participação no Terças Poéticas, capitaneado por Wilmar Silva, realizado na última terça:

Ouça aqui:
http://www.ufmg.br/online/radio/arquivos/anexos/RODRIGO%20GARCIA%20LOPES%20-%20HOMENAGEM%20A%20WALT%20WHITMAN%20-%2003-11-2009.mp3

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

NOTURNO




A gente nunca sabe


saber a mente sempre

intui que seja breve

mesmo que seja a chave

enquanto a mesma febre

conclame à alma acabe

e assim a gente lembre

que negra é a cor da neve




Rodrigo Garcia Lopes

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

SOMOS PESSOAS ESTRANHAS



somos

pessoas
estranhas

nem sabemos
que sonhos
que somos

esses
olhos
poucos

essas
folhas
secas?

esqueçam
fiquem
calados

somos
estranhos
no entanto

esta noite
dormiremos
lado a lado




Rodrigo Garcia Lopes

Em Solarium (Editora Iluminuras)

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Entrevista sobre Whitman e Leaves of Grass

Max Silva Moreira me entrevistou sobre a tradução de Leaves of Grass, de Walt Whitman, para a revista TANTO.
Confira aqui:
Estou em Sampa, indo para o Fórum das Letras de Ouro Preto. Dia 3, pocket show Canções do Estúdio Realidade dentro do projeto Terças Poéticas, capitaneado por Wilmar Silva, no Palácio das Artes.
Alô, Minas Gerais!!!

Terça-feira, Outubro 20, 2009

A PÉ




Um ritmo caminhava em minha direção

Nele o nylon das ondas como testemunhas

Uma verdade qualquer se traduzindo em som

Quantas vezes nos perdemos no carinho

Não o amor que um dia foi estranho sonho

Mas essa onda volutas linha sobre linha

Eco de luz que havia sido prometida


E a vida é mais cedo que se supunha—


O que nos apressa na voragem

É essa lentidão, não esta alegria.

Mas latimos pra lua sem culpa nenhuma,

Descascamos a pele da paisagem

Com nossas próprias unhas.




Rodrigo Garcia Lopes (inédito, 2008)



lar


gu


em


-me


mi


la


gr


es





Sábado, Outubro 17, 2009

OSTRANENIE, a road poem (poema de Rodrigo Garcia Lopes)


Pego nessa estranha lógica do mundo

Peço carona para a família de malucos

Que tem como hobbies mais esdrúxulos

Não contar as horas, só contar os cucos,

Trocar beijos como quem troca socos,

Praguejar como um bando de marujos

E tomar na cara achando que é soluço.

Perguntam a meu nariz se estamos juntos

Rasuram paisagens, comem presunto,

Depois falam falam falam como loucos

Até ficarem sem voz e sem assunto.

Desço, em algum antigo vilarejo russo.






Rodrigo Garcia Lopes (Em Nômada, Editora Lamparina, 2004)

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

PEÔNIAS NEGRAS (poema de Rodrigo Garcia Lopes)




peônias negras
serenas
quase secas

pombos se aquecem
num resto
de sol

uma planta
luta para
romper a fenda

formigas dragam
uma abelha
ainda viva

o inverno
furta a flor
a cor da fruta

(gestos & acenos
de sombras
não consolam)

a tarde passa
arrasta e deixa
um rastro prata







Rodrigo Garcia Lopes (Em Solarium, Editora Iluminuras, 1994)

O compositor WILLY CORRÊA (Recife, 1938), musicou este poema, mas ainda não ouvi a gravação.

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

AURORA, poema de ARTHUR RIMBAUD (Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça)

AURORA



Eu abracei a aurora de verão.

Nada ainda se mexia na fachada dos palácios. A água estava morta.

Acampamentos de sombras não deixavam a trilha do bosque. Eu marchava, despertando hálitos vivos e cálidos, e as pedrarias espiavam, e as alas se levantavam sem um som.

A primeira missão foi, num atalho já cheio de centelhas frescas e pálidas, uma flor que me disse seu nome.

Sorri para a loira wasserfall que se descabelava através dos pinheiros; reconheci a deusa no cimo de prata.

Então, um a um, levantei os véus. Nas alamedas, agitando os braços. Pela planície, onde a denunciei ao galo. Na cidade grande ela fugia entre cúpulas e campanários, e correndo como um mendigo entre docas de mármore, eu a caçava.

No alto da trilha, perto de um bosque de louros, eu a envolvi com seu monte de véus, e senti um pouco seu corpo imenso. A aurora e a criança caíram na beira do bosque.

Ao acordar, meio-dia.




ARTHUR RIMBAUD

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça (Em Iluminuras, Iluminuras, 1994)

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

O OLHAR DE WALTER NEY

O Walter Ney é um excelente fotógrafo de Londrina. Ele acaba de abrir um blog pra abrigar suas fotos. Aqui:

http://www.walterneyfotos.blogspot.com/


Vale a pena conhecer seu trabalho.


Ipanema - Morro Dois Irmãos. FOTOS DE WALTER NEY

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

UM INÉDITO DE LEMINSKI

Poema inédito de Paulo Leminski, com frescor de escrito agora.




morrer

como uma barca


morrer

entre meus livros


lendo

como Petrarca


escrevendo

como Flaubert


afundar entre meus livros

como quem afunda numa mulher





PAULO LEMINSKI

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

LAURA RIDING

Alécio Cunha publicou hoje um artigo inspirado sobre minha tradução Mindscapes (Iluminuras, 2004), da poeta americana Laura Riding. Confira aqui ou em:

A poesia total de Laura Riding

Alécio Cunha


Laura Riding

O rigor modernista de Laura Riding não deve ser esquecido



Reler é um dos verbos mais agradáveis da face da terra. Limpando a poeira das estantes, de repente, dou de cara com um livro que me deixou muito impressionado no momento de sua primeira leitura, há, creio, cinco anos.

O reencontro com os versos vitais da norte-americana Laura Riding (1901-1991), um dos principais nomes da poesia modernista em seu país, foi para lá de fortuito.

A tradução de "Mindscapes", assinada pelo poeta e ensaísta paranaense Rodrigo Garcia Lopes ("Solarium", "Polivox", "Nômada"), que já verteu à língua portuguesa Rimbaud e Sylvia Plath, foi publicada pela editora Iluminuras, de São Paulo (SP), e ainda pode ser encontrada em pontas de estoques de livrarias e sebos, um senhor negócio.

Laura Riding é autora de dicção única, quase inimitável. Para ela, a poesia tem uma importância muito além do próprio processo de criação e construção literária. É, na verdade, a forma máxima de conhecimento do mundo, uma disciplina, assim como a História e a Filosofia. Dona de uma radicalidade de pensamento, de atitudes ácidas, ela conviveu com nomes como Virginia Woolf, T.S. Eliot, William Carlos Williams, Ezra Pound, William Butler Yeats, W. H. Auden e Gertrude Stein, embora mantivesse uma postura de independência crítica que resvalava, sem dó, em uma ética e estética próprias, capazes de desafiar até mesmo o próprio exercício poético.

Em 1939, no auge de sua polêmica carreira como poeta, pesquisadora da linguagem e ensaísta, ela abandonou a poesia. Parecia prever o que o filósofo Theodor W. Adorno comentaria a respeito da gestação literária após o término da Segunda Guerra Mundial e a descoberta para o mundo dos horrores dos campos de concentração nazista e a perseguição aos judeus. "É impossível escrever poesia depois de Auschwitz", disse Adorno.

Por premonição e com antecedência, Laura levou a sério a definição do apocalíptico Adorno. Só voltaria a escrever poemas nos anos 19660, mudando inclusive seu sobrenome para Jackson. Nessas mais de três décadas de silêncio, a autora acompanhou seu companheiro na produção de laranjas em uma fazenda no interior dos Estados Unidos. Embora abraçasse a agricultura e a criação cítrica, não deixou de lado a pesquisa com a linguagem, embora seus cada vez mais raros poemas só ganhassem circulação a partir dos anos 1970.

Embora tenha tido seu nome praticamente eliminado do cânone poético norte-americano da primeira metade do século XX e seus versos estivessem presentes em apenas raras coletâneas, Laura Riding fez a cabeça de gerações de poetas e ficcionistas, entre eles John Ashbery (autor de "Auro-Retrato Num Espelho Convexo"), Kathy Acker e Paul Auster, que a cita como uma de suas principais influências no belo e seminal ensaio "A Arte da Fome" (publicado no Brasil pela editora José Olympio).

Sua poesia fortemente comprometida com o grau de depuração da linguagem deságua também nas propostas vanguardistas da "language poetry" norte-americana a partir de nomes como Charles Bernstein, Michael Palmer e Jerome Rothenberg. A tradução de Rodrigo Garcia Lopes é a primeira em língua não-inglesa. . Reflexiva, iconoclasta, auto-referente, Laura Riding apostava em seus "mindscapes" (título desta coletânea), cuja melhor tradução aproximativa à língua portuguesa seria "pensagens", espaços verbais transpostos à escrita onde há um constante flerte entre razão e emoção, cálculo e desejo, rigor e respiro, cavalgada de paradoxos sutilmente explorada pela autora. Em um dos poemas, “O Mapa dos Lugares”, a norte-americana assume uma geografia de risco. Confira, a seguir.



O MAPA DOS LUGARES



O mapa dos lugares passa
A realidade do papel se rasga
Onde terra e água estão
Estão apenas aonde já estavam
Quando palavras se liam aqui e aqui
Antes de navios acontecerem ali.


Agora de pé sobre nomes nus,
Sem geografias na mão,
E o papel é lido como antigamente,
os navios no mar
Dão voltas e voltas

Tudo sabido, tudo encontrado
A morte cruza consigo por toda parte
Buracos nos mapas dão em lugar algum.




LAURA RIDING

(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes)


OCUPAÇÃO LEMINKSI

Hoje abre uma grande exposição de PAULO LEMINSKI em Sampa, no Itaú Cultural. Com curadoria de Ademir Assunção. Uma pena não poder estar lá. Só posso desejar o maior sucesso ao Pinduca e à Alice, que acaba de ganhar o Prêmio Jabuti.

A FOTO:

Uma das passagens de Leminski e Alice em Londrina. Lançamento no antigo e antológico Valentino, em 1985: no fundo, Beto Coltro (com a mão no rosto), Paulo Leminski, eu, Ademir Assunção, Neuza, Alice e Janete. Foto: Milton Dória.

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

LONDRIX, LEMINSKI ETC


O show ontem no fechamento do Londrix foi emocionante. Deu tudo certo. Marco Scolari e Edu Batistella e eu fizemos nossa parte.
Espero que quem tenha ido tenha curtido. A gente deu o melhor.
Depois do cansaço vou dar um jeito de postar a gravação do show ao vivo aqui ou na página do Myspace.

Aproveitei e e curti os show do Bonus Trash, com o Valquir Fedri mandando ver no palco como sempre e conheci a banda Saco de Ratos, do meu amigo Mario Bortolotto.


AH!

Começa depois de amanhã uma super-exposição em Sampa em homenagem ao PAULO LEMINSKI, que um dia me deu este manuscrito abaixo, entre outros, e que fará parte da exibição do Itaú Cultural. A curadoria é do Ademir Assunção, o Pinduca. Vale a pena conferir. deve ficar mais de um mês lá. Vou nessa.


Quinta-feira, Setembro 24, 2009

Neste domingo: Canções do Estúdio Realidade no encerramento do LONDRIX

Marco Scolari, dando alma e som nos teclados e acordeón.

Eduardo Batistella.


No show no SESC Vila Mariana, com Edu Batistella (batera) e Marco Scolari (piano, teclados e acordeón). FOTOS: Marina Ribeiro do Valle



Dia 27, domingo, às 20h, no encerramento do Londrix - Festival Literário de Londrina - o show Canções do Estúdio Realidade


Canções do Estúdio Realidade traz canções do primeiro CD, Polivox, e músicas inéditas que farão parte do próximo disco, firmando um diálogo entre a canção brasileira e experimentos sonoros e ritmos como blues, jazz e funk. No repertório, músicas como as inéditas "Vertigem", "New York", "Fugaz", "Rito", entre outras.

Formação: Rodrigo Garcia Lopes (voz, violão,) Marco Scolari (teclado, acordéon e efeitos eletrônicos) e Eduardo Batistella (bateria). Auditório.
Myspace (músicas): http://www.myspace.com/ogirdor2009

Canções do Estúdio Realidade. Show de Rodrigo Garcia Lopes.
Dia 27/09/2009, domingo, às 20 horas, na Vila Cultural Cemitério de Automóveis, R. João Pessoa, 103 (entre Quintino e JK)
Ingressos à venda a R$ 10 e R$ 5.


ALGUMA CRÍTICA

Nascido em Londrina (PR), o poeta Rodrigo Garcia Lopes se lança em disco como músico, cantor e compositor com o independente Polivox. De voz séria e redonda, aventura-se pela música popular com sonoridade e poética que remetem diretamente a Itamar Assumpção, especialmente em "Minuto" e "Clique, Plugue, Ligue".
PEDRO ALEXANDRE SANCHES (crítico de música, Folha de São Paulo, 2001)

Rodrigo Garcia Lopes, autor de Polivox, é mesmo um cara de muitas vozes. Vozes dele, vozes de outros. Não é toda a hora que se encontra gente múltipla assim, que escreve poesia e ensaios, faz entrevistas, toca violão, compõe, canta...Tudo bem feito, claro. Para o público em geral, ávido de cultura, uma personalidade criativa e livre dessas por perto, nesta época de especializações, de nichos de mercado, de repetições e limitações, é motivo para comemorar.
VITOR RAMIL (músico, compositor e escritor)

Rodrigo Garcia Lopes é um dos mais notáveis poetas paranaenses da safra novíssima. Me impressiona a falta de provincianismo, a abertura cosmopolita, a coragem da informação difícil, o extremo atrevimento desse londrinense, nada indigno do pioneirismo que levantou, naquela terra vermelha, a cidade mais rápida do Brasil.
PAULO LEMINSKI (Correio de Notícias, 16/11/1985)

Obrigada por me mandar o Polivox, tenho ouvido direto porque este é um trabalho para se ouvir muitas vezes, tem muitas camadas. Eu simpatizei de cara, antes mesmo de ouvir porque meu CD Público ia se chamar Polyvox, que é um nome lindo prum CD... Parabéns pelo trabalho. ADRIANA CALCANHOTTO (cantora e compositora)

Depois de ler os poemas de Rodrigo Garcia Lopes, não tenho a menor hesitação em afirmar coisas grandiloqüentes como: ele é um dos melhores poetas surgidos ultimamente neste país. CAIO FERNANDO ABREU (escritor, em 14/3/1988)

As canções chamam a atenção para a palavra, revelam uma leveza no tratar o lirismo urbano contemporâneo, contaminado pela multiplicidade de referências, pela brutalidade do efêmero e do massivo. Segundo o autor, a proposta do CD "é criar um território híbrido, onde poesia e música - como as pegadas de um pássaro na areia - sejam indissociáveis (como sempre foram, dos rapsodos gregos aos rappers)". A experiência resultou interessante e merece ser lida e ouvida com cuidado.
REYNALDO DAMAZIO (poeta e crítico)

Rodrigo dialoga de maneira madura e consciente com tendências da música popular paulistana (pós-vanguarda paulistana). Aliás, isso que eu chamo música popular paulistana, não é tão apenas paulistana assim quando lembramos de nomes como Arrigo, Itamar e Robinson Borba, entre muitos outros que não eram de São Paulo. E dizer que há este diálogo, não é de modo algum engavetar o Polivox de Garcia Lopes. Como já disse, é um trabalho maduro, surpreendente para um primeiro disco, mas compreensível e não menos admirável quando se sabe que Rodrigo toca e compõe não é de hoje. A qualidade musical é algo que o ouvinte pode se impressionar.
ANDRÉ LUIS GONÇALVES OLIVEIRA (crítico de música, no site POPBOX)

Sábado, Setembro 19, 2009

Nesta terça em Sampa: CANÇÕES DO ESTÚDIO REALIDADE


Rodrigo Garcia Lopes apresenta, no dia 22, terça-feira, às 20h30, no auditório do SESC Vila Mariana, em São Paulo, o show Canções do Estúdio Realidade


Canções do Estúdio Realidade traz canções de seu primeiro CD, Polivox, e músicas inéditas que farão parte de seu próximo disco, firmando um diálogo entre a canção brasileira e experimentos sonoros e ritmos como blues, jazz e funk, que tem sido a marca de seu trabalho. O show traz, num mesmo contexto, a diversidade sonora e riqueza poética ao explorar a relação entre som e sentido, abrigando linguagens e universos que vão da MPB ao blues, da música trovadoresca ao jazz, do reggae ao funk. No repertório, músicas como as inéditas "Vertigem", "New York", "Rito".

Formação: Rodrigo Garcia Lopes (voz, violão,) Marco Scolari (teclado, acordéon e efeitos eletrônicos) e Eduardo Batistella (bateria). Auditório.


Myspace (músicas)
http://www.myspace.com/ogirdor2009
SÉRIE PROSÓDIAS
Rodrigo Garcia Lopes. Dia 22/09/2009, terça, às 20h30

Ingressos à venda em todas as unidades do SESC a partir do dia 01 de setembro. R$ 12,00 (inteira); R$ 6,00 (usuário inscrito no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino); R$ 3,00 (trabalhador no comércio de bens e serviços matriculado no SESC e dependentes); Auditório (131 lugares). Duração: 75 minutos.

SESC Vila Mariana. Rua Pelotas, 141. Informações: 5080-3000
www.sescsp.org.br

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

MINHA DEFINIÇÃO DE POESIA CONCRETA

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

VEM AÍ - LONDRIX 2009

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

EDUARDO SEINCMAN, RODRIGO GARCIA LOPES E MARCELO SAHEA SÃO ATRAÇÕES DA SÉRIE PROSÓDIAS


O SESC Vila Mariana apresenta os espetáculos de Eduardo Seincman, de Rodrigo Garcia Lopes e de Marcelo Sahea na Série Prosódias. O projeto tem a finalidade de criar um diálogo entre música e poesia destacando a intersecção entre as duas linguagens.

O cantor, poeta e compositor londrinense Rodrigo Garcia Lopes apresenta, no dia 22, o show
Canções do Estúdio Realidade com músicas do primeiro CD, Polivox (2001), além de composições do seu próximo álbum. No show, Rodrigo firma o diálogo entre a poesia, a canção brasileira, os experimentos sonoros e ritmos como o blues, jazz e funk. Fazem parte do repertório autoral as canções Vertigem, A Solidão, Rito, Perfeitos Estranhos, New York , entre outras. Rodrigo Garcia Lopes (voz, violão) se apresenta ao lado dos músicos Marco Scolari (teclado, acordéon e efeitos eletrônicos) e Eduardo Batistella (bateria).

SÉRIE PROSÓDIAS
Eduardo Seincman. Dia 08/09/2009, terça, às 20h30
Rodrigo Garcia Lopes. Dia 22/09/2009, terça, às 20h30
Marcelo Sahea. Dia 29/09/2009, terça, às 20h30

Ingressos à venda em todas as unidades do SESC a partir do dia 01 de setembro

R$ 12,00 (inteira); R$ 6,00 (usuário inscrito no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino); R$ 3,00 (trabalhador no comércio de bens e serviços matriculado no SESC e dependentes); Auditório (131 lugares). Duração: 75 minutos.

SESC Vila Mariana
Rua Pelotas, 141
Informações: 5080-3000
www.sescsp.org.br


Terça-feira, Setembro 08, 2009

VERTIGEM


Minha música, Vertigem (Um Corpo que Cai) foi classificada entre as 20 finalistas paranaenses do festival ARPUB - Associação das rádios públicas do Brasil. Durante um mês essas 20 músicas ficarão tocando nas rádios UEL FM e UEM FM:
Os ouvintes deverão votar para escolher as finalistas nacionais, com as músicas que tocarão nas rádios universitárias que participam do festival. Para votar:

1° Clique no Link http://www.uelfm.uel.br/index2.php e OUÇA as músicas.
2° Clique no Link "FALE CONOSCO", que está ACIMA do Anúncio do Festival
3° Preencha o Formulário de Contato:
- Assunto: Selecionar - Outros
- Nome,
- Email,
-Telefone,
-Sua Mensagem: Escreva o nome das 2 Músicas (espero que uma delas seja "Vertigem".
4° Clique em ''Enviar''
As 20 músicas paranaenses foram escolhidas entre as 136 enviadas de todo o Estado para o júri da rádio UEL
Vai lá:
http://www.uelfm.uel.br/index2.php


Quinta-feira, Setembro 03, 2009

SEM POESIA, NEM PENSAR




ela está tirando a roupa

e entrando em minha cama

lua de verão






rodrigo garcia lopes

Quinta-feira, Agosto 27, 2009

HÃ?

Sexta-feira, Agosto 21, 2009

UM DEUS TAMBÉM É O VENTO (PAULO LEMINSKI)

Um dos meus poemas prediletos de Paulo Leminski, que faria aniversário dia 24 próximo.


Foto: Carlos R. Zanello de Aguiar (Macaxeira)

um deus também é o vento
só se vê nos seus efeitos
árvores em pânico
bandeiras
água trêmula
navios a zarpar

me ensina
a sofrer sem ser visto
a gozar em silêncio
o meu próprio passar
nunca duas vezes
no mesmo lugar

a este deus
que levanta a poeira dos caminhos
os levando a voar
consagro este suspiro

nele cresça
até virar vendaval




Paulo Leminski
do livro Caprichos e Relaxos / Brasiliense

Minha entrevista com o cineasta STAN BRAKHAGE na nova revista Taturana



A KINOARTE lança a terceira edição da revista TATURANA, com distribuição gratuita, nesse domingo a partir das 20h no CineSESC, em São Paulo, durante o 20º Curta Kinoforum – Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo. A revista, uma publicação da KINOARTE voltada para o curta-metragem e a produção independente, foi criada em 2007. Essa terceira edição da TATURANA tem como principal tema as relações entre cinema e surrealismo. Entre os destaques estão uma rara entrevista do poeta Rodrigo Garcia Lopes e do fotógrafo Gary Higgins com o realizador Stan Brakhage, uma conversa entre Marcelo Miranda e Laura Cánepa sobre surrealismo no cinema brasileiro, um perfil do londrinense Francelino França, a cobertura do 37º Festival de Cinema de Gramado, uma análise da obra de Naomi Kawase, um ensaio visual de Guilherme Gerais e um texto literário de Ygor Raduy. Há também um depoimento de Wagner Munhê sobre o artista plástico Paulo Menten, um ensaio sobre a logística surreal de Stanley Kubrick para o filme “Napoleão”, uma entrevista com o diretor paranaense Murilo Hauser, e um panorama sobre a produção contemporânea de curtas.

A partir desse ano a TATURANA ganha periodicidade trimestral, com tiragem de 2 mil exemplares
Mais informações no site http://revistataturana.blogspot.com, pelo e-mail kinoarte@gmail.com e pelos telefones (43) 9902 2669 ou (11) 8216 6644.

Quinta-feira, Agosto 13, 2009

HISTÓRIA DE DETETIVE - W.H.AUDEN (tradução: Rodrigo Garcia Lopes)



HISTÓRIA DE DETETIVE


Para quem está sempre numa paisagem estranha,
A rua irregular do vilarejo, a casa escondida entre as árvores,
Tudo perto da igreja, ou a escura casa geminada,
Ou a outra com colunas coríntias, ou cada
Apartamento proletário: em todo caso
Um lar, o centro onde as três ou quatro coisas
Que costumam acontecer a alguém, acontecem? Sim,
Quem não pode desenhar o mapa de sua vida, a sombra
Na pequena estação onde ele cruza suas amantes
E diz adeus continuamente, e repara no local
Onde o cadáver de sua felicidade foi descoberto?
Uma mendiga desconhecida? Um homem rico? Sempre um enigma
E com um passado enterrado mas quando a verdade,
A verdade sobre nossa felicidade é revelado
Quanto ficou devendo à chantagem e ao adultério.
O resto é tradicional. Tudo segue um plano:

A intriga entre o senso comum local
E aquela exasperante e genial intuição
Que está sempre no local, por acaso, antes de nós;
Tudo segue um plano, a mentira e a confissão,
Até a perseguição emocionante no fim, o tiro.
Mas até a última página uma dúvida paira :
E o veredito, foi justo? O nervosismo do juiz,
Aquela pista, o protesto das tribunas,
E até nosso sorriso … pois é . . .
O tempo todo matamos o tempo. Alguém tem que pagar
Pela perda de nossa felicidade: ela mesma.




Detective Story: W. H. Auden (1936)
HISTÓRIA DE DETETIVE - Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

Em The English Auden: Poems, Essays and Dramatic Writings 1927-1939. Ed. Edward Mendelson. 1977. London: Faber, 1986.

Segunda-feira, Agosto 10, 2009





Correria, né?

Quinta-feira, Julho 30, 2009

PARA SUA TÍMIDA SENHORA, de ANDREW MARVELL, traduzido por Rodrigo Garcia Lopes

Este poema é um dos meus favoritos quando o tema é carpe diem (curta a vida que a vida é curta). Segue uma tradução feita por esses dias, respeitando ao máximo as rimas do original.



Com mundo e tempo de sobra, acredite-me,

Senhora, essa tua timidez não seria crime.

Sentados, pensaríamos no modo melhor

De gozar nosso longo dia de amor.

Tu pelas margens do Ganges

Acharia rubis, eu, no estuário langue

Do Humber, reclamaria de tudo.

Te amaria dez anos antes do Dilúvio,

E tu, se quisesses, recusarias meu eu

Até a conversão dos Judeus.

Meu amor vegetal iria assim crescendo

Mais vasto que impérios, e mais lento;

Cem anos gastos para elogiar

Teus olhos, e tua testa contemplar;

Duzentos para adorar cada seio,

Mas trinta mil para seu recheio;

Uma era ao menos para cada seção,

E a última exibiria enfim seu coração.

Senhora, bem mereces tal status.

Recusaria te amar por mais barato.


Mas ouço às nossas costas de repente

O carro alado do tempo, rente;

E além de nós ardem na tarde

Desertos de vasta eternidade.

Tua beleza, hoje, amanhã não será,

Nem na lápide marmórea há de soar

O eco dessa canção; só vermes sem piedade

A devorar tão protegida virgindade,

E tua honra antiquada virando pó,

E cinzas todo meu desejo, a sós:

A cova é discreta e confortável alcova,

Mas que amantes ali se abracem, não há prova.

Agora, enquanto a cor em suas maçãs

Pousa em tua pele como rocio da manhã,

E enquanto tua alma transpire de desejo

E em seus poros fogos sutis revejo,

Vamos nos acabar enquanto é de matina,

E já, como amorosas aves de rapina,

De uma vez devorar o nosso tempo

Em vez de enlanguescer em seu relento.

Enrolemos nossa força, sem espera,

Nossa ternura toda numa só esfera,

E rasguemos prazeres com luta ríspida,

Ao passar pelos portões de ferro da vida;

Pois, se não podemos o sol deter

Podemos ao menos fazê-lo correr.





ANDREW MARVELL, poeta metafísico inglês
TRADUÇÃO: RODRIGO GARCIA LOPES



Segunda-feira, Julho 27, 2009

UIVOS E APLAUSOS À RESISTÊNCIA

TRIBUNA CULTURAL

por Zema Ribeiro*



UIVOS E APLAUSOS À RESISTÊNCIA



Revista de literatura e arte, Coyote alcança 19ª. edição, nadando contra a corrente, remando contra a maré. Que editores e colaboradores consigam ir ainda mais longe, amém!


Thomaz Albornoz Neves entrevistou, em 1993, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), no apartamento carioca do autor de Morte e vida Severina. Apenas uma pequena parte da conversa entre os dois foi publicada na revista Interpoesia, em 1998. O resto permanecia inédito. O 19º. número da Revista Coyote [Kan Editora, distribuição nacional: Iluminuras, 52 páginas, R$ 10,00, pedidos pelo http://www.sebodobac.com.br; alô, livrarias e sebos de São Luís: ninguém se interessa?] traz a íntegra da entrevista com o “cabra lírico”. E este é apenas um dos destaques da revista de literatura e arte que, só por conseguir resistir e chegar a esta 19ª. edição, já merece nossos uivos, digo, aplausos (que tal uivarmos batendo palmas?), pela resistência, insistência, perseverança e, mesmo, teimosia de seus editores.

Ademir Assunção (SP), Marcos Losnak (PR) e Rodrigo Garcia Lopes (PR), inventam e reinventam a publicação sediada em Londrina (PR) e que resiste bravamente, até aqui – e esperamos que por muito tempo ainda –, graças ao apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura de Londrina. Engana-se quem pensa que, com isso, a revista se fecha no próprio umbigo e traz apenas poetas da terra de Leminski. Muito ao contrário: é na Coyote que conheço novas vozes nos campos a que se dedica a publicação (literatura e arte, convém lembrar) e (re-)leio vozes, não direi velhas – há coisas que simplesmente não envelhecem –, mas fundamentais.

Com um belíssimo projeto gráfico, a revista transpira qualidade da primeira à quarta capa: tudo ali é arte. A “matilha” da 19, além de João Cabral e seu entrevistador Thomaz Albornoz Neves, e do editor (da revista) Ademir Assunção – que brinda o público leitor com poemas inéditos –, apresenta nomes como George Oppen (poeta ianque do Grupo Objetivista, formado nos anos 30, falecido em 1984), Teo Adorno (quadrinista e ilustrador paulista) e Ernesto Sabato (doutor em física nuclear, um dos maiores nomes da literatura argentina, nascido em 1911), entre outros, além da tradicional quarta capa, ilustrada pelo Beto, já reconhecida como a capa dos “movimentos”.

TRECHOS DA COYOTE 19

“Tenho a impressão que, por um lado, sou muito mais visual que plástico, por outro não sou nada auditivo. Estou com Voltaire, a música é o menos desagradável dos barulhos. Eu não tenho o menor interesse por música. (...). Minha poesia é toda visual: ela se afasta da linguagem abstrata. A linguagem que me interessa é a linguagem concreta. Meu esforço é justamente, usando o título do livro de Paul Éluard, Donner a Voir [Dar a ver]”.

João Cabral de Melo Neto, em entrevista a Thomaz Albornoz Neves, em 1993

*

“luzes esverdeadas na tela/ da TV, pipocas de microondas,/ pipocos digitais, sim,/ olha lá, olha lá, santelmo/ riscado do mapa,/ cochabamba para bailar la bamba,/ titicaca não passa de titica,/ brasília era só uma ilha, cercada/ de cucarachas e carcamanos,/ quem vai sentir falta/ dessas baratas?, soca mais bombas/ na bunda dessa indiarada, pow,/ crash, soc, e que se fodam/ todos los hermanos, cambada/ de terroristas islâmicos,/ papai me disse que eles comem/ gente, vai vendo, e ainda usam as tíbias/ como palitos de dente”

Ademir Assunção, Videogame, da seleta de inéditos Boa noite, Mister Mistério